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Nem a religião nem a ciência têm existência independente dos seres humanos. Nem religião, nem ciência, nem o conflito ou o não-conflito entre elas têm existência real independente dos seres humanos e das suas instituições. Se isto é assim, e parece ser porque (pelo menos por enquanto) não conseguimos verificar a sua existência independente, então de onde vem as certezas e convicções “religiosas” tanto da ciência como da religião? Aqui a expressão convicção “religiosa” deve ser entendida como aquela certeza que fundamenta uma vida humana ou uma instituição humana (veja: Ciência e Religião e suas convicções). Que os dogmas das religiões são facilmente transformadas em fundamento da vida humana e institucional e, por isto, devem ser defendidos com a própria vida, é reconhecido por todos. Enquanto que os humanos e as instituições religiosas defendem este tipo de fundamento os humanos “científicos” acusam aqueles e recusam este tipo de fundamento por não estar baseado em fatos verificáveis. Mas a posição científica também pode ser transformada em convicção, por assim dizer, “religiosa”. Como, tanto dogmas ou crenças que são inverificáveis cientificamente, como posições científicas podem se tornar em fundamento da vida? Parece que o fundamento da vida é de uma natureza tal que ele independe de como foi adquirido.
É importante notar que ainda hoje, na vida real de pessoas e instituições, os dogmas e crenças são defendidos “religiosamente”, como se a própria existência delas dependesse (o que de fato é o caso). Ou seja, a visão de mundo atual que é predominantemente científica, não conseguiu apagar esta que foi a primeira das formas de explicar o mundo: o mito ou o religioso. No mesmo mundo, pessoas e instituições científicas defendem por assim dizer “religiosamente” suas posições, principalmente diante das crenças religiosas. Por isto é que estas duas formas de explicar a existência, surgidas ao longo da história humana, ainda podem se confrontar. Por isto é que ainda hoje temos estas duas opções de “escolha” ou, ainda, alguma combinação entre estas duas formas de explicação. Mas, para “escolher” precisamos de um critério que nos conduza a uma decisão. Aqui é que entra o que denomino de autoridade que fundamenta cada uma das formas de explicação. Na religião esta autoridade é, normalmente, um deus, um escrito sagrado e os dogmas construídos a partir dele e que sofreram mudanças ao longo da história das diversas instituições religiosas. Na ciência, por sua vez, a autoridade é o método científico. Mas, também o significado de método científico não é uniforme e teve diferentes acentos ao longo de sua história. Se eu aceito que o método científico é o fundamento para o conhecimento mais certo, obviamente terei que rejeitar o fundamento que me oferece um texto sagrado e vice versa. As coisas colocadas assim têm que se excluir pois a nossa idéia de verdade reclama uma decisão. É sobre e a partir de seu fundamento que tanto ciência e religião procuram justificar o seu acesso privilegiado à verdade. Assim, por exemplo, no ainda atual debate entre os criacionistas e evolucionistas, a questão última é: quem têm o melhor fundamento para suas convicções? Neste debate, que muitas vezes chega a ser, infelizmente, um combate, pode-se perceber o quanto o fundamento sobre o qual se constrói a argumentação de ambos os lados é importante. E nem poderia ser diferente pois fatos isolados não “dizem” nada. É a partir do um fundamento que são construídas as relações de nexo entre os fatos, sejam eles científicos ou religiosos. Como o conhecimento científico e religioso tem fundamentos distintos eles podem entrar em conflito. Como estes dois fundamentos podem se tornar em “fundamento da vida”, eles podem se tornar aquilo pelo qual vale a pena viver e morrer, lutar e matar. Como estes dois fundamentos “surgem” no ser humano, eles têm no ser humano o seu ponto de encontro. Ou seja, nem a religião nem a ciência têm existência independente dos seres humanos com suas instituições. Se isto é assim, estas duas, neste sentido “realidades”, podem conviver (ou não) num mesmo indivíduo (ou instituição), dependendo de como eles conseguem (ou não) fazer conviver estes dois fundamentos. É possível decidir de forma inequívoca qual é o fundamento mais verdadeiro? É preciso fazer esta decisão?
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