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Ciência e Religião e suas convicções
Escrito por Robert W. Beims   
Sex, 28 de Março de 2008 17:19

No meu último texto (Ciência e Religião – Conflito real?) apontei para uma questão fundamental e esquecida do conflito entre ciência e religião. O nível em que ele se dá é o nível do humano e de suas convicções. O conflito é real apenas quando acontece nos/entre seres humanos e nas/entre suas instituições. Cada qual, com base nas suas convicções, acredita ter um fundamento melhor para o conhecimento. Portanto, as convicções tanto da ciência quanto da religião oferecem a base sobre a qual cresce a disputa, tanto mais quanto mais firmes forem as suas convicções.

Mas as nossas convicções não surgem do nada, não nascemos com elas, elas se “formam” com o passar do tempo. Este tempo é a vida individual de cada pessoa e instituição. Daí duas observações importantes. De um lado, a constatação que as nossas convicções dependem, pelo menos em parte, do ambiente em que crescemos e, de outro lado, que elas passam a ser uma espécie de fundamento para a nossa vida. Por isto é possível ver pessoas e instituições defendendo a sua posição com tanto entusiasmo e paixão, parece até que a sua vida depende dessa defesa. E isto se torna uma realidade quando minhas convicções são atacadas/abaladas pelas convicções de alguém outro que, com a mesma paixão que a minha, defende as suas.

Nesta situação, para não perder o fundamento da minha vida eu o defendo com todas as minhas forças (é uma questão de sobrevivência). Esta defesa é a análoga mental/espiritual da defesa (muitas vezes instintiva) que faço quando minha vida física corre perigo. As duas defesas são "a mesma defesa” , em ambas, é a minha vida que corre perigo e precisa ser defendida. Portanto, é natural do ser humano defender-se e, muitas vezes, a defesa se torna em ataque e, então, o conflito está armado.

Neste conflito, quanto mais uma convicção, seja ela religiosa ou científica, “precisa” ser defendida para que minha vida não desabe, tanto mais esta convicção é um fundamento para a minha vida. Assim, ao longo da história do ser humano ocidental, surgiram os fundamentos científicos e/ou religiosos. Porém, neste nível, o do fundamento para a vida, a distinção entre "científico" e "religioso" fica discutível. Por razões que quero expor em outro momento, chamo a convicção que fundamenta a vida de convicção “religiosa”, não importando se ela foi adquirida de forma científica ou religiosa. Assim, uma convicção religiosa que é "defendida" por um ser humano sem ser de fato, para ele, uma convicção vital, ela não é dentro desta maneira de ver, "religiosa". Da mesma forma, uma convicção científica que é fundamento vital para uma pessoa, passa a ser uma convicção "religiosa". Isto permite dizer que muitos “cientistas” defendem com paixão, por assim dizer, "religiosa", suas convicções e que muito “crente” não tem uma convicção de fato "religiosa". Tenho certeza que a expressão convicção "religiosa" não é a mais adequada principalmente por causa da conotação negativa que ele evoca em certos círculos. Estou procurando por outro mais adequado, mesmo assim, já dá para perceber que os conceitos ciência e religião começam a ter ligeira mudança em relação à habitual. E assim precisa ser para que o conflito ciência e religião, que é um conflito no “interior” do ser humano e de suas instituições, não os prejudique.

Como pode acontecer que entre o gênero humano existem aqueles que defendem convicções “religiosas” e aqueles que defendem convicções “científicas”, a ponto de se combaterem? Estranhamente, ambos os lados, normalmente respondem que o seu oposto está nas “trevas”. E isto nos leva a perguntar: quem terá a razão? Com quem está a verdade? A luz que vem da ciência não aclara o âmbito da religião e a luz que vem da religião não é reconhecida pela ciência. E é neste ponto que normalmente se invoca, de ambos os lados, uma autoridade para fundamentar a verdade das suas convicções e tentar aniquilar de vez o oponente.

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Última atualização ( Sáb, 03 de Maio de 2008 10:50 )